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Os querubins na Bíblia: o que eles realmente são

Diga a palavra "querubim" em voz alta e a maioria vai imaginar algo fofo — um bebê rechonchudo com asinhas, daqueles bordados em manta de criança. Abra o texto bíblico e vai encontrar algo bem diferente. Toda vez que os querubins aparecem na Escritura, eles estão de pé numa fronteira, guardando algo sagrado ou perigoso demais para se aproximar sem cuidado. Eles não são enfeite. São sentinelas.

Os que guardaram o jardim

Os primeiros querubins da Bíblia aparecem logo depois que Adão e Eva são expulsos do Éden. Deus os coloca "ao oriente do jardim do Éden os querubins e uma espada flamejante que se movia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gênesis 3:24). Não há descrição de seus rostos, nenhum detalhe suave — apenas o fato de sua presença, de pé entre a humanidade e uma árvore que já não era seguro alcançar. É o jeito da Bíblia dizer, logo em suas primeiras páginas, que chegar à presença de Deus não é algo casual. O que é sagrado precisa de um guardião.

Os que vigiaram a arca

Séculos depois, quando Deus dá a Moisés as instruções para a Arca da Aliança, os querubins reaparecem, agora em ouro. Dois deles são forjados da mesma peça de metal que o propiciatório, "com as asas estendidas por cima, cobrindo com as asas o propiciatório... e com os rostos voltados um para o outro" (Êxodo 25:18-20). E então vem o versículo que muda o sentido de tudo antes dele: "Ali me encontrarei contigo, e falarei contigo de cima do propiciatório, dentre os dois querubins" (Êxodo 25:22). Os guardiões do Éden mantinham as pessoas do lado de fora. Os querubins da arca marcam o lugar exato onde Deus escolheu se aproximar. As mesmas figuras, um movimento oposto — que é, em miniatura, todo o percurso da Escritura.

Os tecidos no véu

Os querubins aparecem uma terceira vez num detalhe fácil de deixar passar: o véu interno do tabernáculo, aquele que separava o Lugar Santo do Lugar Santíssimo, era tecido "com querubins de obra esmerada" (Êxodo 26:31). Quem quer que se aproximasse da presença de Deus precisava passar diante de um véu bordado com os mesmos guardiões que um dia estiveram no portão do Éden. Por isso vale notar o que acontece séculos depois, no instante em que Jesus morre: "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo" (Mateus 27:51). O caminho guardado, finalmente, aberto de cima — não forçado por baixo.

Os que Ezequiel mal conseguiu descrever

O profeta Ezequiel dá aos querubins sua aparição mais estranha e avassaladora: quatro seres viventes, rodas dentro de rodas, rostos de homem, de leão, de boi e de águia, identificados depois com clareza: "Estes eram os seres viventes que vi... e entendi que eram querubins" (Ezequiel 10:20). Não é uma imagem confortável. Não pretende ser. Ezequiel tenta pôr em palavras algo que resiste a elas, e o que se percebe, ainda assim, é uma espécie de peso sagrado — a sensação de estar muito perto de algo imenso.

O que os querubins têm significado

Ao longo dos séculos, os querubins passaram a representar a fronteira entre o comum e o sagrado — não como um muro pensado para deixar as pessoas de fora para sempre, mas como um sinal de quanto vale a pena guardar a presença de Deus, e de quanto vale a pena ser convidado a ela. Eles estão esculpidos em pedra de catedrais, tecidos em véus antigos, pintados nas bordas de ícones onde o céu e a terra se encontram.

Entre os oitenta e quatro mostradores desenhados à mão do Bible Clock há um que carrega essa ideia mais antiga e serena dos querubins, ao lado do versículo de Êxodo em que Deus diz pela primeira vez ali me encontrarei contigo. Não é preciso estudá-lo. Em alguns dias você vai simplesmente olhar as horas e encontrá-lo ali, montando guarda.