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O gafanhoto na Bíblia: o que significa

O gafanhoto aparece nas Escrituras com dois rostos bem diferentes. Em um, ele é o próprio desastre — uma nuvem que apaga o sol e não deixa nada verde para trás. No outro, ele é a medida de uma promessa: a prova de que aquilo que uma estação dura devorou, Deus pode devolver. Poucas criaturas pequenas percorrem tanta distância entre a ruína e a restauração.

Uma praga que deixa memória

A primeira aparição do gafanhoto é a oitava praga sobre o Egito (Êxodo 10:1-20). Moisés avisa a Faraó o que vem, e chega exatamente como foi anunciado: um vento leste traz o enxame, e pela manhã "cobriu a face de toda a terra, de maneira que a terra escureceu; e comeu toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado" (Êxodo 10:15). Não sobrou nada verde em toda a terra do Egito. É uma das raras imagens do Antigo Testamento tão vívida que não precisava de explicação para um povo agrícola — todos que ouviam sabiam exatamente como fica um campo depois que os gafanhotos passam.

O profeta Joel abre seu livro da mesma forma, descrevendo uma praga real de gafanhotos em uma linguagem tão exata que os estudiosos ainda debatem se ele está nomeando quatro fases de um mesmo enxame ou quatro ondas diferentes de destruição: "O que a lagarta deixou, o gafanhoto comeu; e o que o gafanhoto deixou, o pulgão comeu; e o que o pulgão deixou, a lagarta-rosca comeu" (Joel 1:4). Seja qual for o caso, o efeito é o mesmo — uma perda total e metódica, uma onda terminando o que a anterior começou.

Os anos que ele comeu

Mas Joel não para por aí, e este é o versículo ao qual as pessoas realmente voltam. Depois da devastação, depois do chamado ao jejum e ao arrependimento, vem uma promessa que vira toda a imagem do avesso: "E vos restituirei os anos que foram comidos pela locusta, pelo cancro, pela lagarta e pela lagarta-rosca" (Joel 2:25). Não só a colheita. Não só esta estação. Os anos. É uma promessa incomum da parte de Deus — não apenas conforto no meio da perda, mas a própria perda devolvida, como se o tempo vivido numa estação difícil pudesse, de alguma forma, ser restituído, e não apenas suportado.

É um consolo estranho para se deter, porque não finge que os gafanhotos nunca chegaram. Os campos continuaram tão desnudos quanto antes; os anos continuaram difíceis. A promessa não é que aquilo não tenha acontecido. É que aquilo não tem a última palavra.

O que o profeta no deserto comia

Os gafanhotos aparecem mais uma vez, quase de passagem, na descrição de João Batista: "E João usava uma veste de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre" (Mateus 3:4). Depois da praga e da promessa, é um detalhe curioso para encerrar: aquilo que uma vez significou ruína se torna, para um homem no deserto, simplesmente o que havia para comer. Sem comentário, sem lição anexada. Só um profeta vivendo com a simplicidade que o deserto permitia, contentando-se com o que havia antes de abrir caminho para algo maior do que ele mesmo.

Uma nota breve

Não é preciso sustentar as três imagens ao mesmo tempo para se deter em qualquer uma delas. Alguns dias, a imagem da praga é a que ressoa — a sensação de que algo deixou uma estação nua. Outros dias, é a promessa de Joel, prova tranquila de que o tempo perdido nem sempre está perdido para sempre. Nenhuma delas traz uma tarefa. Só um versículo, esperando, para o que fizer falta hoje.

O Bible Clock guarda outro tipo de tempo: um versículo por dia, desenhado à mão, em cada tela que você já usa. Sem sequências, sem lições. Só a Escritura chegando em silêncio, como sempre chegou.