O pelicano na Bíblia: de ave da solidão a símbolo de amor
É uma ave estranha para aparecer na Bíblia. O pelicano surge primeiro na parte mais árida e menos poética do texto: as listas alimentares de Levítico 11:18 e Deuteronômio 14:17, ao lado da cegonha e da poupa, entre as aves que Israel não deveria comer. Sem história, sem significado. Só um nome numa lista.
Sua segunda aparição é onde a ave começa a importar de verdade.
Uma ave para o salmo mais solitário
O Salmo 102 é uma das orações mais cruas da Bíblia — o cabeçalho o chama simplesmente de "oração do aflito, quando desfalece e derrama diante do Senhor a sua queixa". No meio desse lamento, o salmista busca uma imagem de pura solidão: "Sou semelhante ao pelicano do deserto; sou como a coruja das solidões" (Salmo 102:6). Seja qual for a ave original em hebraico — os estudiosos ainda discutem isso — a imagem escolhida pelos tradutores diz tudo: uma criatura grande e solitária, parada em terra árida e vazia, longe dos seus. Essa é toda a comparação. Não "estou sendo atacado" nem "estou sendo punido", mas "estou sozinho num deserto" — que às vezes é a coisa mais difícil de dizer em voz alta.
A lenda que virou a ave do avesso
Séculos depois de o salmo ter sido escrito, espalhou-se nas histórias naturais e bestiários da igreja antiga uma crença curiosa: a de que a mãe pelicano, quando faltava alimento, feria o próprio peito para alimentar seus filhotes com o próprio sangue — ou, em outras versões, usava o sangue para reviver filhotes que haviam morrido. Não era biologicamente verdade. Mas como imagem, era irresistível para quem buscava uma figura do amor que custa a quem o dá.
Já na Idade Média, "o pelicano em sua piedade" — uma ave que abre o próprio peito para alimentar seus filhotes — havia se tornado um dos símbolos mais reconhecíveis da arte cristã. Aparece esculpida em atris, trabalhada em vitrais, bordada em vestes de Corpus Christi. Tomás de Aquino chegou a levá-la para um hino eucarístico, dirigindo-se a Cristo diretamente: "Pie pellicane, Jesu Domine" — "Piedoso pelicano, Senhor Jesus". A ave que antes representava a solidão do salmista havia se tornado, na imaginação da igreja, uma imagem de Cristo entregando seu corpo e seu sangue por aqueles que amava.
Dois significados, uma só ave
O notável é que esses dois significados não estão realmente em conflito. Uma criatura sozinha no deserto e uma criatura que dá tudo o que tem por seus filhotes — as duas são fiéis a algo real sobre o amor. Às vezes o amor parece uma solidão que ninguém vê. Às vezes parece um custo que alguém paga em silêncio, para que outro não precise pagar. O pelicano, curiosamente, carregou os dois.
Um dos 84 mostradores desenhados à mão do Bible Clock traz um pequeno pelicano, ao lado do seu versículo dos Salmos — uma imagem tranquila para os dias em que você se sente longe de todos, e para os dias em que é você quem dá mais do que alguém consegue ver.
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