O bode expiatório na Bíblia: o que ele realmente significa
Usamos essa expressão o tempo todo, e quase nunca para o que ela descrevia originalmente. Um "bode expiatório", na fala comum, é a pessoa culpada por algo que não é realmente culpa dela — a que carrega a culpa para que os outros saiam limpos. É uma palavra para a injustiça. Mas o bode original, o de Levítico, não era vítima de injustiça nenhuma. Era algo bem mais parecido com alívio.
Dois bodes, um só ritual
A expressão vem de uma cerimônia específica, descrita em Levítico 16, no dia mais sagrado do calendário israelita: o Dia da Expiação, Yom Kippur. Uma vez por ano, o sumo sacerdote tomava dois bodes, escolhidos por sorteio. Um era sacrificado, e o sangue servia para purificar o santuário dos pecados do povo naquele ano. O outro — o bode expiatório — era mantido vivo.
O sacerdote colocava as duas mãos sobre a cabeça desse segundo animal e confessava sobre ele "todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões e todos os seus pecados" (Levítico 16:21). Depois o bode era levado para fora do acampamento, além dos campos, até um deserto onde ninguém morava, e ali era solto. Ele não voltava. O que carregava, levava embora para sempre.
Por que eram necessários dois
Um animal morre; o outro vai embora. Juntos, eles representam duas coisas diferentes que toda pessoa precisa do perdão: que a dívida foi paga, e que o próprio registro desapareceu. Não basta saber que o mal foi tratado em algum lugar. Alguma coisa precisa carregá-lo, visivelmente, para fora do acampamento.
Essa é a imagem que o Salmo 103 retoma séculos depois: "Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Salmo 103:12). Não encobertas. Não apenas perdoadas no papel. Afastadas, e ainda caminhando, numa direção sem volta.
Uma palavra que mudou de sentido
Em algum ponto entre Levítico e hoje, "bode expiatório" se inverteu. Hoje nomeia uma injustiça — alguém punido pelo que outra pessoa fez. Mas o bode do deserto não carregava uma culpa injusta. Estava fazendo exatamente o que se esperava dele. Nada lhe foi roubado que pertencesse a outro; toda a cerimônia existia porque o povo precisava de um lugar para onde mandar aquele peso, e a esse animal foi dada a tarefa de levá-lo para longe da vista.
Visto assim, a história não é realmente sobre o animal. É sobre o que um povo fazia com um ano inteiro de coisas que não conseguia desfazer sozinho — e ela insiste, em voz baixa, que esse lugar existe. Não um lugar onde o pecado é ignorado. Um lugar além da borda do acampamento, de onde ele não volta a te procurar.
Levado, não apenas coberto
O Novo Testamento retoma as duas metades desse rito antigo e as lê numa única figura. O servo de Isaías, "moído pelas nossas iniquidades" (Isaías 53:5), e o bode levado ao deserto convergem num mesmo ato — algo pago e algo levado embora, ao mesmo tempo. Seja qual for a leitura que a sua tradição faça dessa conexão, o formato da esperança é o mesmo que Levítico colocou em palavras pela primeira vez: o peso não precisa ficar com você. Pode ser posto sobre outra coisa e levado para além de onde você consegue enxergar.
Você não precisa fazer nada com isso hoje. Nem decorar, nem aplicar, nem transformar numa lição antes de dormir. Alguns versículos são como esse animal mesmo — fazem o trabalho deles indo embora, em silêncio, levando algo junto.
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