O que são as Quatro Têmporas? Os jejuns discretos que marcavam cada estação
Quatro vezes por ano, numa quarta-feira, sexta-feira e sábado próximos da virada de estação, boa parte da Igreja ficava quieta de propósito. Sem festa, sem procissão — só jejum, uma oração mais recolhida e uma espécie de pausa coletiva enquanto uma estação passava a vez para a seguinte. São as Quatro Têmporas, e, a menos que você tenha crescido numa tradição que ainda as guarda, é bem provável que nunca tenha ouvido falar delas.
Quatro "tempos" no ano
O nome em latim é quatuor tempora — "quatro tempos" — e é basicamente isso que as Têmporas são: quatro observâncias breves, uma perto do início de cada estação natural. Tradicionalmente caíam:
- Depois de 13 de dezembro (festa de Santa Luzia), perto do início do inverno
- Depois do primeiro domingo da Quaresma, perto do início da primavera
- Depois de Pentecostes, perto do início do verão
- Depois de 14 de setembro (Exaltação da Santa Cruz), perto do início do outono
Cada rodada dura só três dias — quarta, sexta e sábado —, reservados para o jejum, uma oração mais silenciosa e a ação de graças pelo que aquela estação tinha acabado de dar: os últimos frutos da colheita, a virada para o plantio, a plenitude do verão.
De onde vem o nome, de verdade
Em português, "Têmporas" vem direto do latim tempora, "tempos" — sem lenda nem mistério por trás. (Em inglês existe uma confusão curiosa: muita gente acha que "Ember Days" se refere às brasas de uma fogueira, quando na verdade a palavra vem do inglês antigo ymbren, "um percurso" ou "um ciclo" — as Têmporas marcavam o percurso do ano, não brasa nenhuma.) Em português, o nome sempre foi direto: são, literalmente, os tempos do ano.
Uma estação para pedir, não só para descansar
As Têmporas nunca foram só sobre comida. Em boa parte da Igreja ocidental, o sábado de cada rodada virou o dia de costume para ordenar novos clérigos — diáconos, presbíteros —, marcado de propósito nesses pontos mais quietos do calendário, como se um novo ministério devesse começar numa dobra do ano, e não no meio de qualquer outra coisa. As comunidades rurais acrescentavam sua própria camada de sentido: orações pelas lavouras no plantio, ação de graças por elas na colheita, o ritmo prático de um ano que girava em torno da terra e do clima muito antes de girar em torno de um calendário digital.
Onde ficaram hoje
Depois das reformas do calendário em meados do século XX, as Têmporas recuaram em boa parte do calendário universal da Igreja Católica, ficando a observância a critério de cada conferência episcopal — e hoje, na maioria dos lugares, são quase uma lembrança silenciosa. Comunidades que seguem o calendário litúrgico anterior à reforma continuam guardando-as por completo. Para o restante, sobram como uma nota de rodapé na história da Igreja.
Por que vale a pena conhecer um jejum quase esquecido
Não é preciso jejuar numa quarta-feira específica para perceber o que as Têmporas assinalavam: as estações seguem seu curso, percebamos ou não, e há algo antigo e sensato em parar, quatro vezes por ano, para reconhecer essa dobra. O inverno chega. Algo na terra precisa esperar. O verão chega. Algo finalmente está pronto. As Têmporas eram o jeito que a Igreja tinha de dizer: que a virada de estação não passe despercebida.
Os mostradores do ano litúrgico do Bible Clock fazem algo parecido, numa escala menor e diária — um desenho feito à mão e um versículo marcando onde o calendário está, para que uma virada de estação como esta chegue à sua tela em vez de passar despercebida. Sem jejum para guardar, sem dias para lembrar. Só a Escritura, marcando o tempo.